terça-feira, 16 de março de 2010
Junie (La Belle Personne)
domingo, 7 de março de 2010
Quebre o copo!
O vinho tornava as coisas mais fáceis para ele. E para mim.
– Por que você parou de repente? Por que não quer falar de Deus, da Virgem, do mundo espiritual?
– Quero falar de outro tipo de amor – insistiu. – Aquele que um homem e uma mulher compartilham, e em que também se manifestam os milagres.
Segurei suas mãos. Ele podia conhecer os grandes mistérios da Deusa – mas de amor sabia tanto quanto eu. Mesmo que tivesse viajado tanto.
E teria que pagar um preço: a iniciativa. Porque a mulher paga o preço mais alto: a entrega.
Ficamos de mãos dadas por um longo tempo. Lia em seus olhos os medos ancestrais que o verdadeiro amor coloca como provas a serem vencidas. Li a lembrança da rejeição da noite anterior, o longo tempo que passamos separados, os anos no mosteiro em busca de um mundo onde estas coisas não aconteciam.
Lia em seus olhos as milhares de vezes em que havia imaginado este momento, os cenários que construíra ao nosso redor, o cabelo que eu devia estar usando e a cor da minha roupa. Eu queria dizer “sim”, que ele seria bem-vindo, que o meu coração havia vencido a batalha. Queria dizer o quanto o amava, o quanto o desejava naquele momento.
Mas continuei em silêncio. Assisti, como se fosse um sonho, à sua luta interior. Vi que tinha diante dele o meu “não”, o medo de me perder, as palavras duras que escutou em momentos semelhantes – porque todos passamos por isto, e acumulamos cicatrizes.
Seus olhos começaram a brilhar. Sabia que estava vencendo todas aquelas barreiras.
Então soltei uma das mãos, peguei um copo e coloquei na beirada da mesa.
– Vai cair – disse ele.
– Exato. Quero que você o derrube.
– Quebrar um copo?
Sim, quebrar um copo. Um gesto aparentemente simples, mas que envolvia pavores que nunca chegaremos a compreender direito. O que há de errado em quebrar um copo barato – quando todos nós já fizemos isto sem querer alguma vez na vida?
– Quebrar um copo? – repetiu ele. – Por quê?
– Posso dar algumas explicações – respondi. – Mas, na verdade, é apenas por quebrar.
– Por você?
– Claro que não.
Ele olhava o copo de vidro na beira da mesa – preocupado com que caísse.
“É um rito de passagem, como você mesmo fala”, tive vontade de dizer. “É o proibido. Copos não se quebram de propósito. Quando entramos em restaurantes ou em nossas casas, tomamos cuidado para que os copos não fiquem na beira da mesa. Nosso universo exige que tomemos cuidado para que os copos não caiam no chão.
Entretanto, continuei pensando, quando os quebramos sem querer, vemos que não era tão grave assim. O garçom diz “não tem importância”, e nunca na vida vi um copo quebrado ser incluído na conta de um restaurante. Quebrar copos faz parte da vida e não causamos qualquer dano a nós, ao restaurante, ou ao próximo.
Dei um esbarrão na mesa. O copo balançou, mas não caiu.
– Cuidado! – disse ele, instintivamente.
– Quebre o copo – eu insisti.
Quebre o copo, pensava comigo mesma, porque é um gesto simbólico. Procure entender que eu quebrei dentro de mim coisas muito mais importantes que um copo, e estou feliz por isto. Olhe para a sua própria luta interior e quebre este copo.
Porque nossos pais nos ensinaram a tomar cuidado com os copos, e com os corpos. Ensinaram que as paixões de infância são impossíveis, que não devemos afastar homens do sacerdócio, que as pessoas não fazem milagres, e que ninguém sai para uma viagem sem saber aonde vai.
Quebre este copo, por favor – e nos liberte de todos estes conceitos malditos, esta mania que se tem de explicar tudo e só fazer aquilo que os outros aprovam.
– Quebre este copo – pedi mais uma vez.
Ele fixou seus olhos nos meus. Depois, devagar, deslizou sua mão pelo tampo da mesa, até tocá-lo. Num rápido movimento, empurrou-o para o chão.
O barulho do vidro quebrado chamou a atenção de todos. Em vez de disfarçar o gesto com algum pedido de desculpas, ele me olhava sorrindo – e eu sorria de volta.
– Não tem importância – gritou o rapaz que atendia as mesas.
Mas ele não escutou. Havia se levantado, me agarrado pelos cabelos, e me beijava.
Eu também o agarrei nos cabelos, abracei-o com toda força, mordi seus lábios, senti sua língua se movendo dentro de minha boca. Era um beijo que havia esperado muito – que havia nascido junto dos rios de nossa infância, quando ainda não compreendíamos o significado do amor. Um beijo que ficou suspenso no ar quando crescemos, que viajou pelo mundo através da lembrança de uma medalha, que ficou escondido atrás de pilhas de livros de estudos para um emprego público. Um beijo que se perdeu tantas vezes e que agora tinha sido encontrado. Naquele minuto de beijo estavam anos de buscas, de desilusões, de sonhos impossíveis.
Eu o beijei com força. As poucas pessoas que estavam naquele bar devem ter olhado, e pensavam estar vendo apenas um beijo. Não sabiam que naquele minuto de beijo estava o resumo de minha vida, da vida dele, da vida de qualquer pessoa que espera, sonha e busca o seu caminho debaixo do sol.
Naquele minuto de beijo estavam todos os momentos de alegria que vivi.
(trecho de “Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei”)
Paulo Coelho.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Rotina.
Sorrisos falsos, piadas sarcásticas, rotinas falsas, tratar bem pessoas que você não conhece, por educação? Não. Mas por medo de ficar sozinho. E quando essa empolgação acabar? O que fazer? Seguir em frente talvez seja a melhor escolha. Mas sempre vai faltar alguma coisa. Julga-se ser feliz quando não é por achar que essa resposta lhe trará menos atritos, por achar que esse é o melhor caminho. Mas, espera. Você não está mentindo para si mesmo? Perdemos muito por não dizer o que sentimos, mas também perdemos muito por dizer o que se passa em nossas cabeças.
Somos o que devemos ser e nada pode nos mudar a não ser nós mesmos.
Nós perdemos muito tempo lembrando do passado quando deveríamos apenas visitá-lo de vez em quando para ter algumas lembranças, boas no caso. Perdemos muito tempo fazendo planos para o nosso futuro e querendo adivinhá-lo, quando nós tínhamos que apenas viver o presente e deixar que o tempo resolva o resto. Mas não sabemos esperar, quando queremos algo, queremos naquele momento, naquele instante, se não, não valerá nada para nós. E por não conseguir o que queríamos, permanecemos calados agindo como se nada estivesse fora do normal.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Seis bilhões de pessoas no mundo, e eu só quero estar perto de uma."
(Autor desconhecido)
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Meus olhos nunca estiveram tão pesados, nunca olharam tanto para o nada, nunca estiveram tão cinzas e sem vidas.
A cada dia que passa ele perde mais as suas cores, que antes eram castanhos escuros, mas que quando recebiam a luz do sol, dava para ver a variedade de castanhos claros, escuros, alguns traços negros e um brilho que eu carregava não só no olhar, como na alma também. Um brilho de esperanças. Esperanças que eu tinha num sonho quase irreal – talvez fosse irreal, talvez eu ainda não consiga enxergar que tudo foi apenas um sonho – que eu vivi por tanto tempo, que acreditei. Que me entreguei de corpo e alma. E agora a única coisa que me restou foi o meu olhar vazio, e uma mente congestionada de dúvidas.
Forço sorrisos, e gestos para disfarçar o vazio que anda ao meu lado todo o tempo. Mas não sou feita de aço. Sou feita de sentimentos, mesmo que não queira.
Um dia hei de me erguer e ir em frente e não irei olhar para trás. Talvez, olharei para trás para lembrar de algo bom, mas não irá durar muito tempo essa nostalgia que irei viver, pois logo virão outras lembranças. E enfim, meus olhos voltaram a brilhar, voltaram a ter cores e vou voltar a ver coisas boas.
Essa é a minha única vontade, ter o brilho dos meus olhos de volta.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Você está sentado de frente a uma mesa. E tem um copo cheio de água sobre a mesma. Você pode movê-lo para qualquer lugar dela sem sequer derramar uma gota de água. Mas somos tão estúpidos que movemos o mesmo e deixamos derramar água sobre essa mesa. E se tal mesa fosse de papel? Ela iria se desfazer fácil se você derramasse água sobre ela, então você teria mais cuidado ao mover o copo. Mas como a tal mesa é de mármore e não se desfaz com água, você derrama água por prazer, por gosto de ver o copo pela metade, até então vê-lo vazio. E como nós gostamos do estrago, como o copo não tem mais nenhuma serventia, por prazer, você o taca no chão. Só pra ouvi-lo quebrar.
Supomos que somos o copo, a pessoa que o move é alguém que você goste, muito. E a água é o nosso sentimento, as nossas lágrimas, a nossa dor. A pessoa que nos move gosta de nos ver derramar sentimentos, exige algo que nos machuca. Mesmo sem ver, tal pessoa exige isso de nós. Mas com o tempo, e com os fatos e atitudes, nós abrimos os olhos e enxergamos o que tal pessoa nos faz. Assim ficamos vazios, como o copo, aquele sentimento todo vai acabando, derramando e secando na mesa de mármore.
Isso, todos nós somos um pouco assim. Confuso, não?
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Veronika Decide Morrer.
“Entretanto, há coisas na vida que, não importa de que lado a enxerguemos, continuam sempre as mesmas – e valem para todo mundo. Como o amor, por exemplo.”
Zedka notou que os olhos de Veronika haviam mudado.
- Eu diria que, se alguém tem muito pouco tempo de vida, e resolve passar este pouco tempo que lhe resta diante de uma cama, olhando um homem dormindo, há algo de amor. Diria mais: se durante este tempo, esta pessoa teve um ataque cardíaco, e ficou em silêncio – só para não ter que sair de perto daquele homem – é porque este amor pode crescer muito.
- Pode ser também desespero – disse Veronika. – Tentativa de provocar que, afinal de contas, não há motivos para se continuar lutando debaixo do sol. Não posso estar apaixonada por um homem que vive em outro mundo.
- Todos nós vivemos em nosso próprio mundo. Mas se você olhar para o céu estrelado, verá que todos estes mundos diferentes se combinam, formando constelações, sistemas solares, galáxias.
Veronika levantou-se e foi até a cabeceira de Eduard. Carinhosamente, passou as mãos nos seus cabelos. Estava contente por ter alguém com quem conversar.
- Há muitos anos atrás, quando eu era uma criança e minha mãe me obrigava a aprender piano, eu dizia a mim mesma que só seria capaz de tocá-lo bem quando estivesse apaixonada. Ontem a noite, pela primeira vez na minha vida, senti que as notas saiam de meus dedos como se eu não tivesse controle algum sobre o que fazia.
“Uma força me guiava, construía melodias e acordes que nunca pensei ser capaz de tocar. Eu me entregara ao piano porque tinha acabado de me entregar a este homem, sem que ele tivesse tocado um fio sequer do meu cabelo. Ontem eu não fui eu mesma, nem quando me entreguei ao sexo, nem quando toquei piano. Mesmo assim, acho que fui eu mesma.”
Paulo Coelho.