quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

E eu quero brincar de esconde-esconde, te emprestar minhas roupas, dizer que amo seus sapatos, sentar na escada enquanto você toma banho, e massagear seu pescoço. E beijar seu rosto, segurar sua mão e sair p'ra andar. Não ligar quando você comer minha comida, e te encontrar numa lanchonete p'ra falar sobre o dia. Falar sobre o seu dia e rir da sua, sua paranóia. E te dar fitas que você não ouve, ver filmes ótimos, ver filmes horríveis. E te contar sobre o programa de TV que assisti na noite anterior e não rir das suas piadas. Te querer pela manhã, mas deixar você dormir mais um pouco. Te dizer o quanto adoro seus olhos, seus lábios, seu pescoço, seus peitos, sua bunda. Sentar na escada, fumando, até seus vizinhos chegarem em casa, sentar na escada, fumando, até você chegar em casa. Me preocupar quando você está atrasado, e me surpreender quando você chega cedo. E te dar girassóis e ir à sua festa e dançar. Me arrepender quando estou errado e feliz quando você me perdoa. Olhar suas fotos e querer ter te conhecido desde sempre. Ouvir sua voz no meu ouvido, sentir sua pele na minha pele, e ficar assustada quando você se irrita. Eu digo que você está linda, e te abraçar quando você estiver aflita, e te apoiar quando você estiver magoada, te querer quando te cheiro, e te irritar quando te toco e choramingar quando estou ao seu lado. E choramingar quando não estou. Debruçar-me no seu peito, te sufocar de noite e sentir frio quando você puxa o cobertor e sentir calor quando você não puxa. Me derreter quando você sorri, me desarmar quando você ri. Mas não entender como você pode achar que estou rejeitando você quando eu não estou te rejeitando, e pensar como você pôde pensar que eu te rejeitaria. E me perguntar quem você é, mas te aceitar do mesmo jeito. E te contar sobre o "tree angel", "o menino da floresta encantada" que voou todo o oceano porque ele te amava.

Comprar presentes que você não quer e devolvê-los de novo. E te pedir em casamento, e você dizer "não" de novo, mas continuar pedindo, porque embora você ache que não era de verdade, mas sempre foi sério, desde a primeira vez que pedi. Ando pela cidade pensando. É vazio sem você, mas eu quero o que você quiser e penso. Estou me perdendo, mas vou contar o pior de mim e tentar dar o melhor de mim porque você não merece nada menos que isso. Responder suas perguntas quando prefiro não responder, e dizer a verdade mesmo que eu não queira, e tentar ser honesto porque sei que você prefere. E achar que tudo acabou, espera só mais dez minutos antes de me tirar da sua vida. Esquecer quem eu sou e me deixar tentar chegar mais perto de você. E de alguma forma, de alguma forma, de alguma forma compartilhar um pouco do irresistível, imortal, poderoso, incondicional, envolvente, enriquecedor, agregador, atual, infinito amor que eu tenho por você.


Reflections of a Skyline

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A lei de Jante

– O que você acha da princesa Martha-Louise?
O jornalista norueguês me entrevistava à beira do lago de Genebra. Geralmente me recuso responder perguntas que fogem ao contexto do meu trabalho, mas neste caso sua curiosidade tinha um motivo: a princesa, no vestido que usara ao fazer 30 anos, mandara bordar o nome de varias pessoas que tinham sido importantes em sua vida – e entre estes nomes estava o meu (minha mulher achou a idéia tão boa que resolveu fazer a mesma coisa em seu aniversário de 50 anos, colocando o crédito “inspirado pela princesa da Noruega” em um dos cantos da sua roupa).
– Acho uma pessoa sensível, delicada, inteligente – respondi. – Tive oportunidade de conhece-la em Oslo, quando me apresentou a seu marido, escritor como eu.
Parei um pouco, mas precisava ir adiante:
– E existe uma coisa que eu realmente não entendo: por que a imprensa norueguesa passou a atacar o trabalho literário do seu marido depois que ele se casou com a princesa? Antes as críticas eram positivas.
Não era propriamente uma pergunta, mas uma provocação, pois eu já imaginava a resposta: a crítica mudou porque as pessoas sentem inveja, o mais amargo dos sentimentos humanos.
O jornalista, entretanto, foi mais sofisticado do que isso:
– Porque ele transgrediu a Lei de Jante.

Evidente que eu jamais ouvira falar disso, e ele me explicou o que era. Continuando a viagem, percebi que em todos os países da Escandinávia é difícil encontrar alguém que não conheça esta lei. Embora ela já exista desde o inicio da civilização, foi enunciada oficialmente apenas em 1933 pelo escritor Aksel Sandemose na novela “Um refugiado ultrapassa seus limites”.

A triste constatação é que a Lei de Jante é uma regra aplicada em todos os países do mundo, embora os brasileiros digam “isso só acontece aqui”, ou os franceses afirmem “em nosso país, infelizmente é assim.” Como o leitor já deve estar irritado porque leu mais da metade da coluna sem saber exatamente do que se trata a Lei de Jante, vou tentar resumi-la aqui, com minhas próprias palavras:
“Você não vale nada, ninguém está interessado no que você pensa, a mediocridade e o anonimato são a melhor escolha. Se agir assim, você jamais terá grandes problemas em sua vida.”

A Lei de Jante enfoca, em seu contexto, o sentimento de ciúme e inveja que às vezes dá muita dor de cabeça a pessoas como Ari Behn, o marido da princesa Martha-Louise. Este é um dos seus aspectos negativos, mas existe algo muito mais perigoso.
É graças a ela que o mundo tem sido manipulado de todas as maneiras, por gente que não teme o comentário dos outros, e termina fazendo o mal que deseja. Acabamos de assistir uma guerra inútil no Iraque, que continua custando muitas vidas; vemos um grande abismo entre os países ricos e os países pobres, injustiça social por todos os lados, violência descontrolada, pessoas que são obrigadas a renunciar aos seus sonhos por causa de ataques injustos e covardes. Antes de iniciar a segunda guerra mundial, Hitler deu vários sinais de suas intenções, e o que o fez ir adiante foi saber que ninguém ousaria desafia-lo por causa da Lei de Jante.

A mediocridade pode ser confortável, até que um dia a tragédia bate à porta, e então as pessoas se perguntam: “mas porque ninguém disse nada, quando todo mundo estava vendo que isso ia acontecer? ”
Simples: ninguém disse nada porque elas também não disseram nada.

Portanto, para evitar que as coisas fiquem cada vez piores, talvez fosse o momento de escrever a anti-lei de Jante:
“Você vale muito mais do que pensa. Seu trabalho e sua presença nesta Terra são importantes, mesmo que você não acredite. Claro que, pensando assim, você poderá ter muitos problemas por estar transgredindo a Lei de Jante – mas não se deixe intimidar por eles, continue vivendo sem medo, e irá vencer no final.”

(trecho do livro “Ser como um rio que flui”)

Paulo Coelho


domingo, 10 de janeiro de 2010

- Meu coração é inquieto, como se tivesse uma tempestade dentro do mesmo, um mar enfurecido, com ondas quebrando na margem, com um céu em prantos, com raios como se fossem gritos de incertezas, de talvez alguma esperança, falsa é claro, mas o meu coração é iludido, triste, fraco e ao mesmo tempo forte. Fraco por bombear pouco sangue em meu corpo me deixando com frio, e forte por ser inquieto e voraz. Meu coração tem sede de emoções e sentimentos. Meu coração sente falta de algo para confortá-lo, meu coração clama por algo que saiba acalmá-lo. Meu coração grita por confiança. Meu coração é experiente, ele sabe o que há de vir. Meu coração perdeu a cor, perdeu a força, mas ainda é um mar em tempestade. Meu coração sabe fingir - às vezes - que está bem. Só um tolo á de acreditar quando ele “diz” estar bem. Posso chamá-lo de tolo também, pois sempre sabe da verdade, mas prefere acreditar na mentira. Talvez por confortá-lo, talvez por acalmá-lo, talvez por carência, mas no fundo ele sabe que nada do está acontecendo é verdade, ele é astuto, inteligente, e ao mesmo tempo, burro. Burro por sempre cair na mesma armadilha da vida, por acreditar, ter fé, e esperanças. Mas podemos definir ele como um ignorante, que pensa só em seu bem estar. Isso, meu coração é ignorante. Mas o que posso fazer? Ele tem vontade própria.

Então ela não fez um gesto de surpresa. Ficou calada o encarando, e o silêncio tentando sussurrar alguma frase que ele não queria ouvir. Enfim algumas palavras saíram de sua boca delicada, um pouco avermelhada por causa do frio que tentava cortar seus lábios.

- Você é incrível, não conseguiria descrever assim algo que eu sinto.

O vento gélido tentou cortar mais uma vez os seus lábios, talvez a castigando, mas falhou, mais uma vez. Ele olha para as suas mãos ásperas, olha para suas unhas roídas tentando buscar algo para tirar palavras “concretas” de sua boca e logo disse.

- Por que és assim?

Ela o olha um pouco surpresa pela pergunta inesperada, mas não demonstra muito sentimento.

- Assim?

- Sim, o frio combina com você. Tudo que é gelado, frio, duro, e triste combina com você. Você não mostra o que sente, se é que sente. É algo tão vão e difícil de confiar. Eu preciso confiar em ti, então fique comigo e me mostre que quer o mesmo que eu. Traga confiança para mim, faça eu me sentir seguro, eu quero confiar em ti.

Mas ela não queria passar confiança para ele, pois tinha o pior defeito de todos. O medo de sentir.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Silent Hill - O paraíso é aqui

Chegou mais uma vez
A hora da despedida
Quando todas as coisas finalmente foram feitas
Ou refeitas sem o brilho no olhar
Se despeça com um beijo e um abraço
Pode ser simplesmente um aperto de mão
Ou apenas estenda seu braço para dizer adeus
A deus nós imploramos para não ficarmos tristes
Mesmo sabendo que não vai adiantar

Deixo as lágrimas caírem enquanto sorrio
Já me imaginando longe daqui
E recomeço é sempre o começo de
Uma nova partida
Que levará muitos corações a chorar
É o fim de um longo caminho
Que não tenho certeza para onde irá
É uma despedida
A porta de saída
De um mundo que decidiu acabar

Silent Hill.